No mundo dos negócios, costuma-se dizer que o mercado é uma maratona, não um sprint. Para Ricardo Böck, de 35 anos, a frase deixou de ser uma metáfora corporativa para se tornar uma rotina de 42.195 metros. Bacharel e mestre em Economia, o gaúcho de Sobradinho construiu uma carreira respeitável em ambientes de alta pressão tanto na gestão de fortunas multimilionárias como em consultorias estratégicas para gigantes no mercado agrícola, logístico e varejo, até a multinacionais de food delivery. Mas foi no asfalto, longe das planilhas, que ele encontrou o “ajuste fino” para sua liderança.
Böck não é o tipo de corredor que busca o pódio das provas, mas sim um que encontra prazer no processo. “A maratona é a prova inequívoca de que persistir por longos períodos gera mais resultado do que explosões esporádicas de brilhantismo”, afirma.
Para quem já operou mesas de tesouraria e hoje atua na consultoria Heartman House, em São Paulo, em projetos estratégicos que vão desde o desenvolvimento de novos negócios, design organizacional até eficiência e reestruturação a analogia é: assim como uma empresa não sobrevive a inconsistências de gestão operacional e financeira, um corredor não termina uma prova sem um planejamento de longo prazo respeitado à risca.
Em uma rotina que chega a consumir 14 horas diárias de trabalho, a corrida entrou na vida de Ricardo de forma estruturada em 2021, durante a pandemia. O que começou com dificuldades para superar os 6 km evoluiu para um currículo que inclui as meias de Buenos Aires e Porto Alegre, culminando na Maratona de Budapeste, em 2025.
Diferentemente de muitos que buscam as assessorias para socializar, Böck prefere treinar sozinho. É no “microcosmo de individualidade” dos treinos que ele processa as decisões que tomará no escritório. “Uso o silêncio e o isolamento dos treinos para me autorregular emocional e fisicamente. Isso alivia a pressão natural de um trabalho exigente”, revela.
Essa postura combina com a sua forma de liderar e mediar situações delicadas, de possível conflito. Ao tratar a competição como algo individual, de seus próprios limites, Ricardo não leva isso para o ambiente corporativo e consegue ser mais colaborativo no trabalho em equipe. “Exerço a coletividade quando estou trabalhando e a individualidade quando estou treinando. Consigo extrair o melhor dos dois mundos”, explica.
A transição para os 42 km não foi isenta de obstáculos. Na preparação para Budapeste, uma lesão na metade final do ciclo colocou o objetivo em xeque. Foi ali que a resiliência construída ao longo das décadas no ambiente corporativo e a disciplina do esporte se fundiram. Para ele, o esporte ensina que não existe “atalho” ou “dia de sorte” na maratona, assim como não existe mágica em uma consultoria de sucesso.
Hoje, com os olhos postos na Maratona de Buenos Aires em setembro de 2026 e a ambição de realizar as Majors de Boston e Tóquio, Böck mantém uma rotina de três a quatro treinos semanais, somados a sessões de fortalecimento muscular. Para o economista, a corrida como escolha diária não é uma válvula de escape, mas uma forma de integração estratégica, unificando a atividade física com a modulação emocional e a clareza mental. “A inspiração existe, mas ela tem que te encontrar trabalhando, ou, também no meu caso, correndo”, brinca, citando Picasso.