A poucos minutos da Art of Jiu-Jitsu Academy, academia fundada pelos brasileiros Gui Mendes e Rafa Mendes, uma escola pública do sul da Califórnia passou a observar, dentro das salas de aula, reflexos diretos da cultura do jiu-jitsu brasileiro. Entre crianças que treinam antes das aulas, alunos que chegam uniformizados da academia e famílias vindas do homeschooling, o esporte começou a ocupar também um papel ligado à educação e ao desenvolvimento humano.

É nesse ambiente que atua a brasileira Patrícia Yukari Hirano, membro da diretoria da ISSAC (International School for Science and Culture), instituição com foco em cidadania global, ensino trilíngue e aprendizagem baseada em projetos. Nascida na Zona Leste de São Paulo, Patrícia construiu uma trajetória internacional ligada à educação, liderança e transformação social até assumir, aos 26 anos, um cargo de liderança na escola americana.

Sua experiência na área começou em 2015, no Japão, onde trabalhou durante três anos no Centro de Línguas Estrangeiras da Soka University, auxiliando estudantes japoneses na prática da língua inglesa. Depois, passou um ano no Reino Unido atuando como professora assistente no programa Kumon. Já nos Estados Unidos, integrou o departamento de relações com ex-alunos da Soka University of America antes de iniciar, em junho de 2021, sua atuação na ISSAC, logo após concluir o mestrado em Liderança Educacional para a Mudança Social.

“Na minha percepção, o jiu-jitsu desenvolve nas crianças habilidades socioemocionais e cognitivas extremamente importantes, que se refletem diretamente na sala de aula. Entre elas estão a disciplina, o autocontrole, o respeito, a escuta ativa, a perseverança e a capacidade de lidar com desafios e frustrações”, afirma Patrícia.

Segundo ela, a proximidade da escola com a academia fez com que muitos alunos passassem a conciliar a rotina escolar com os treinos. Há crianças que chegam à escola após sessões realizadas às 6h da manhã, enquanto outras seguem direto para a academia depois do período letivo.

O movimento também provocou uma aproximação natural entre famílias ligadas ao jiu-jitsu e a escola pública onde Patrícia trabalha. Alguns pais que antes optavam pelo ensino domiciliar passaram a matricular os filhos na ISSAC após conhecerem o modelo educacional da instituição.

“Apesar de muitos pais terem questionamentos sobre a educação pública nos Estados Unidos, ao conhecerem nosso programa, eles se sentiram confortáveis em matricular os filhos na escola”, relata.

A escola reúne alunos de diferentes origens e trabalha diariamente com inglês, espanhol e uma terceira língua opcional entre japonês e chinês, além de projetos ligados a meio ambiente, empreendedorismo, multiculturalismo e direitos humanos.

Patrícia acredita que o ambiente criado pelo jiu-jitsu vai além da prática esportiva e impacta diretamente o comportamento das crianças.

“Muitos alunos que praticam jiu-jitsu demonstram maior capacidade de concentração, conseguem seguir instruções com mais facilidade e apresentam mais equilíbrio emocional em situações de conflito ou pressão”, diz. “Também é comum observar nesses alunos um maior respeito pelos colegas, professores e regras da escola.”

A educadora vê no esporte uma ferramenta importante diante dos desafios emocionais enfrentados por jovens atualmente. Ela cita pesquisas recentes sobre saúde mental juvenil para explicar como o senso de pertencimento criado dentro das academias contribui para o desenvolvimento emocional das crianças.

“Em um mundo onde muitos jovens relatam sentimentos de solidão e desconexão, o ambiente esportivo oferece comunidade, apoio emocional e reconhecimento. Ele cria vínculos significativos que ajudam o jovem a se sentir parte de algo maior”, afirma.

Mesmo sem ter praticado jiu-jitsu, Patrícia sempre enxergou o esporte como instrumento de formação humana. Ex-jogadora de vôlei, ela conta que experiências pessoais, trabalhos voluntários e sua atuação internacional ajudaram a moldar sua visão sobre educação e liderança.

Hoje, acompanhando de perto alunos ligados à arte suave, ela percebe como o jiu-jitsu brasileiro passou a influenciar também o ambiente escolar nos Estados Unidos.

“O esporte ensina respeito, empatia, responsabilidade, perseverança e cooperação. Quando bem orientado, o jiu-jitsu deixa de ser apenas um esporte e se torna um poderoso instrumento de educação e formação de caráter, preparando crianças não só para o desempenho escolar, mas para a vida.”