Radicado nos Estados Unidos há mais de uma década, Eduardo “Brigadeiro” Venâncio estará no Rio de Janeiro neste sábado para ministrar um seminário na matriz da Brigadeiro Jiu Jitsu, na Barra da Tijuca. Faixa-preta 6º grau formado por Ricardo De La Riva, ele retorna à academia onde desenvolveu parte de um trabalho iniciado há quase quatro décadas. O encontro será fechado e destinado a convidados.
A aula terá fundamentos, estratégia, defesa pessoal e conceitos desenvolvidos por Brigadeiro ao longo da carreira. A proposta é trabalhar princípios que possam ser utilizados por praticantes de diferentes graduações, com atenção à compreensão das situações encontradas durante uma luta.
“Quero apresentar princípios que possam ser aplicados por diferentes níveis de praticantes, do iniciante ao faixa-preta, mostrando não apenas o que fazer, mas principalmente por que fazer, quando aplicar e como adaptar cada conceito às características individuais do atleta”, explica Brigadeiro. “O objetivo é que cada participante saia do seminário não somente com novas técnicas, mas com uma compreensão mais ampla do jiu-jitsu e de como continuar evoluindo depois do evento.”
A maneira de ensinar também mudou ao longo dos anos. Se no início da carreira havia maior preocupação com a quantidade de técnicas transmitidas, hoje Brigadeiro concentra o trabalho na compreensão dos fundamentos e na capacidade de cada aluno utilizá-los de acordo com suas características.
“Com a experiência, entendemos que ensinar bem não significa simplesmente apresentar centenas de técnicas. Significa construir fundamentos sólidos e fazer com que o aluno compreenda distância, base, pressão, alavanca, timing, controle, transições, tomada de decisão e eficiência de movimento”, afirma.
A trajetória de Brigadeiro nas artes marciais começou ainda na infância, primeiro no judô. O contato com o jiu-jitsu ocorreu por meio de Cláudio França e ganhou espaço no Riviera Country Club, também na Barra da Tijuca. Ainda nas faixas coloridas, começou a auxiliar nas aulas e, posteriormente, deu continuidade ao trabalho no local. Durante sua formação, tornou-se aluno de Ricardo De La Riva, de quem recebeu a faixa-preta.
A partir dessa base surgiu a Brigadeiro Jiu Jitsu. Segundo o professor, mais de 150 faixas-pretas foram formados por ele ao longo da carreira. Entre os nomes está Thaís Ramos, primeira mulher faixa-preta campeã mundial da IBJJF. Como competidor, Brigadeiro conquistou o bronze no Mundial de 1996 e venceu o Long Beach International Open e o Atlanta Summer International Open na categoria Master 3, em 2016.
No fim de 2015, Brigadeiro mudou-se para a Flórida e iniciou uma nova etapa da carreira. Nos Estados Unidos, passou a trabalhar com diferentes perfis de alunos e teve experiências com universidades, atletas e profissionais de segurança pública, incluindo um período de treinamento com uma unidade do FBI em Jacksonville.
A vivência americana foi incorporada ao método que pretende apresentar no Rio. Com formação em Educação Física, Administração, Marketing Esportivo e Treinamento Desportivo de Alto Rendimento, Brigadeiro procura aproximar a experiência adquirida no tatame de conceitos de treinamento e performance.
“Pretendo compartilhar justamente essa integração, o conhecimento tradicional do Brazilian Jiu-Jitsu aliado à metodologia moderna de treinamento, performance e desenvolvimento humano”, diz.
Mesmo acompanhando as transformações do jiu-jitsu competitivo, Brigadeiro defende a preservação de fundamentos ligados à origem da modalidade. Para ele, novas técnicas, preparação física e estratégias voltadas às regras precisam conviver com defesa pessoal, domínio posicional, escapes e controle.
“Não podemos ensinar o esporte de 2026 utilizando exclusivamente os mesmos métodos utilizados há trinta anos. Por outro lado, existe uma diferença entre evoluir o jiu-jitsu e perder a identidade do jiu-jitsu”, avalia. “A competição é uma extraordinária ferramenta de desenvolvimento, mas não pode representar todo o sistema.”
O trabalho iniciado no Rio também atravessou fronteiras. De acordo com Brigadeiro, a organização mantém academias, equipes associadas, representantes, parcerias ou projetos que já alcançaram mais de 14 países. A lista inclui Brasil, Estados Unidos, Portugal, Uruguai, Argentina, Holanda, Marrocos, Inglaterra, Espanha, Noruega, Israel, Austrália e Tanzânia. Ele ressalta que nem todas as operações são filiais e que a atual etapa busca organizar essa expansão sob uma metodologia comum de ensino e formação de professores.
Para Brigadeiro, o número de alunos que passaram a ensinar jiu-jitsu tornou-se uma das principais medidas do trabalho desenvolvido ao longo da carreira.
“Uma medalha representa um momento. Um professor bem formado pode impactar centenas ou milhares de vidas durante décadas”, afirma. “Meu objetivo não é simplesmente produzir bons competidores ou excelentes faixas-pretas. Quero formar pessoas capazes de carregar conhecimento e valores para a próxima geração.”
Essa visão também está nos planos para 2027. Um dos projetos de Brigadeiro é ampliar a atuação do Instituto Brigadeiro, iniciativa que pretende conciliar a formação de atletas com educação e desenvolvimento de jovens. A proposta prevê identificar talentos e oferecer caminhos para o alto rendimento, sem limitar o trabalho aos que seguirem uma carreira competitiva.
“Nem toda criança que entrar em um projeto de jiu-jitsu será um atleta profissional, mas todas podem ser impactadas pela educação”, afirma.
A intenção é acompanhar os jovens dentro e fora do tatame, levando em consideração aspectos como desempenho escolar, comportamento e desenvolvimento pessoal. O projeto também pretende apresentar diferentes possibilidades profissionais ligadas à modalidade, da carreira como atleta às funções de professor, treinador, árbitro e gestor esportivo.
“Queremos fortalecer ainda mais a conexão entre esporte e educação, criando oportunidades de formação dentro e fora do tatame”, diz Brigadeiro.