A Copa do Mundo é um dos poucos eventos capazes de alterar, ao mesmo tempo, o comportamento do consumidor, a dinâmica das redes sociais e as estratégias das marcas. Durante o torneio, atenção e emoção se concentram em torno de um único assunto, e é nesse ambiente que empresas disputam espaço em tempo real, tentando transformar visibilidade em conexão.

“Durante a Copa o consumidor não é o mesmo do dia a dia, ele entra em um estado emocional diferente. Está mais conectado, mais receptivo a mensagens e disposto a consumir”, explica a especialista em marketing digital Mayra Leal. “A atenção se concentra em torno do evento, e isso cria janelas de oportunidade únicas para marcas que souberem entrar na conversa de forma autêntica.”

Esse cenário exige leitura rápida e planejamento antecipado. Em um ambiente em que um lance dura segundos e pode repercutir por dias, o timing se torna decisivo. “A Copa é ao vivo, e o marketing também precisa ser. Perder o ‘timing’ significa perder oportunidade e autenticidade”, afirma.

A capacidade de operar nesse ritmo está diretamente ligada à trajetória de profissionais que atuam no setor. Com mais de uma década de experiência, Mayra construiu a carreira entre o Brasil e os Estados Unidos, onde vive desde 2017. Formada em Publicidade e Propaganda, iniciou a trajetória em São Paulo, onde foi coordenadora de marketing da Sociedade Paulista de Radiologia (SPR), uma das principais instituições médicas da América Latina. Na função, liderou um dos maiores eventos de radiologia da região, acumulando experiência em planejamento estratégico, gestão de grandes projetos e comunicação institucional.

Na prática, essa base se soma à vivência internacional para formar uma leitura mais ampla sobre como diferentes públicos reagem ao esporte. “O Super Bowl é, antes de tudo, um evento publicitário. Já no Brasil, o futebol é cultura, é emoção pura. As marcas podem apostar em narrativas passionais, no orgulho nacional, no jogo da torcida”, diz.

Nos Estados Unidos, Mayra consolidou sua atuação no marketing voltado ao setor de hospitalidade, tornando-se uma referência na área de restaurantes e experiências. Assumiu cargos de liderança, incluindo o de Diretora de Marketing em uma empresa destacada pelo Michelin Guide, aprofundando sua visão sobre comportamento do consumidor e posicionamento de marca em um mercado altamente competitivo.

Mayra Leal é um ás do marketing – Foto: Divulgação

 

Em 2024, após concluir um MBA em Business Administration, deu um passo além e fundou a própria agência, a The Online Folks. A mudança marcou a transição de executiva para empreendedora. Deixou o cargo de diretora para assumir o comando de uma empresa própria, que rapidamente passou a ganhar reconhecimento no mercado. Desde então, ampliou a carteira e passou a atender principalmente empresas do setor de hospitalidade, como restaurantes e marcas de alimentos e bebidas.

Esse contato direto com o consumo cotidiano ajuda a entender como o comportamento coletivo durante a Copa impacta decisões de compra. “O consumidor se torna mais social, assiste em grupo, compartilha opiniões nas redes, vibra junto e sofre junto. É nessa vulnerabilidade emocional que as marcas conseguem criar algo que vai além da venda: memória afetiva e experiência.”

Com a Copa de 2026 prevista para os Estados Unidos, Canadá e México, o cenário tende a ganhar novos elementos. A expectativa é de integração entre estratégias baseadas em dados, comuns no mercado americano, e a espontaneidade que marca o consumo brasileiro. “Na Copa sediada nos EUA esses dois mundos vão se encontrar e quem tem leitura bicultural sai na frente”, afirma.

Além disso, o peso da comunidade latina deve influenciar diretamente o mercado. “Os EUA têm mais de 60 milhões de latinos apaixonados pelo esporte, inseridos na cultura digital e prontos para transformar cada jogo em uma celebração coletiva”, diz.

No ambiente digital, a disputa por atenção tende a se concentrar em plataformas de resposta rápida. “O TikTok é a plataforma do momento imediato: reação ao gol, memes. O Instagram funciona para narrativas mais construídas, e o X segue como espaço de debate ao vivo”, explica.

Mas a velocidade não elimina a necessidade de estratégia. “Estar pronto não significa improvisar. Significa ter planejado tanto que, quando o imprevisto acontece, você consegue reagir em minutos com qualidade”, afirma.

A atuação de Mayra também inclui participação no comitê de marketing da AMA San Diego, braço local da American Marketing Association, entidade que reúne mais de 30 mil profissionais nos Estados Unidos. A experiência ampliou sua visão sobre planejamento de campanhas e eventos. “É uma oportunidade de colaborar com profissionais altamente qualificados e contribuir com estratégias reais para uma organização de referência internacional”, diz.

Para empresas com menor orçamento, o caminho passa por proximidade e autenticidade. “O restaurante que transmite o jogo ao vivo e posta a reação da mesa, o bar que cria um drink temático; esse é o tipo de conteúdo que as pessoas querem ver e compartilhar”, afirma.

Entre os erros mais comuns, ela aponta a tentativa de participar do evento sem estratégia definida. “Marcas que simplesmente colocam uma bola de futebol na arte e publicam ‘bora Brasil’ não geram nenhum valor. O público percebe isso imediatamente”, conta.

A experiência no Brasil, segundo ela, segue como base do trabalho atual. “O brasileiro aprende a se adaptar, a encontrar solução com o que tem. Aqui nos EUA, essa habilidade vale ouro”, afirma.

Diante de um evento que mobiliza o mundo, a oportunidade existe, mas não é automática. “Qualquer marca pode comprar um anúncio, mas durante a Copa as pessoas estão abertas de um jeito diferente. Para quem entende o contexto, é um acelerador de negócios”, resume.

No fim, a lógica segue a do próprio futebol. “A diferença é a mesma entre um ‘gol qualquer’ e um golaço: um resolve o jogo, o outro faz história.”